Hoje em dia, definitivamente os nerds dominaram o mundo. Mas mesmo com essa popularização dos super-heróis nas TVs ou na telona, as vendas de quadrinhos, na melhor das hipóteses, continuam baixas. E na minha opinião, essa culpa é das próprias editoras, com essa mania constante de relançar, reboot do universo, zerar numerações, espanta os leitores (me espantou inclusive) e parece manter os fãs de HQs cada vez mais distantes.

O Reboot da DC (Novos 52) foi um sucesso inegável. Uma maluquice sem fim, com 52 títulos e tal, mas ainda sim, sucesso. Difícil dizer, no entanto, se pela nostalgia, algumas correções na linha temporal das histórias, ou só pelo buzz que eles geraram, ou ainda um aumento na qualidade das histórias, o que em se tratando de alguns títulos da editora, é no mínimo, discutível. Fora reboot em cima de reboot e mudanças afetadas pelo Universo do cinema, como por exemplo, o fim do Quarteto Fantástico. Mas ei, quem sou eu pra julgar os caras por quererem aproveitar o sucesso dos filmes.

De qualquer maneira, ao contrário dos cinemas, a DC parece estar encontrando seu caminho, enquanto a Marvel ainda luta para sair do olho do furacão. Os dois últimos mega-eventos da editora sofreram com atrasos e spoilers. Por mais irônico que isso possa parecer, os maiores heróis da editora estão mortos, controlados por Nazistas, fora de ação, desaparecidos ou pior, agindo completamente fora do normal, chegando a se tornar irreconhecíveis para os fãs. Novos leitores não estão tão empolgados com essa jogada de diversificar os heróis e os velhos fãs estão de saco cheio de tanta mudança. Pode esperar mais um reboot e eu nem acho que vai demorar muito.

Então, para quem é fã de HQs assim como eu, tá difícil. Para quem cria quadrinhos, também tá. O gênero depende de alguma estagnação, mas também precisa de mudanças para se manter relevante. Mude muito e você corre o risco de furar uma fórmula, não mude e corra o risco de ficar chato e irrelevante. A maioria dos super-heróis está passado ou beirando os 50 anos, sendo que alguns tem 70 anos. Pensando bem, esgotou no sentido de histórias a serem contadas. Bons escritores sempre vem com ideias boas e novas, mas o acúmulo torna o trabalho cada vez mais difícil.

Talvez os super-heróis não devam ter durado tanto? Com certeza, quando foram criados, ninguém pensou que eles iriam tão longe. Mas histórias em quadrinhos vão muito além de HQs de super-heróis. Talvez por isso a gente tenha um movimento de Graphic Novels e quadrinhos autorais como nunca se viu antes.

Claro que elas não alcançam o número de pessoas que alcançam DC e Marvel, mas se você está cheio de HQs de super-heróis, não se limite. E se você tá precisando de um empurrão para dar um tempo delas e procurar respirar novos ares, tenho aqui 7 clichês que são problemas sérios nessa indústria:

7 – Foda-se a Continuidade

Muitos escritores odeiam a continuidade por que dificulta o seu trabalho. Esses caras que hoje escrevem, cresceram lendo quadrinhos e é por isso que eles tem mania de assumir um título já fazendo uma penca de mudanças, para deixar mais como eles se lembram do personagem e da história. Por isso essa mecânica de zerar o universo é tão popular. Nos Novos 52, Geoff Johns botou Superman e Batman para brigar “pela primeira vez” de novo, na edição #2 da Liga da Justiça. Isso já aconteceu uma centena de vezes, mas como era uma continuidade nova, seria inédito. Tá.

Antigamente, a continuidade era bem mais costurada. Se os Vingadores foram para o espaço por um mês e os X-Men fossem fazer uma visita na mansão deles, ela estaria vazia. Uma nota do editor daria uma breve explicação e apontaria o leitor para comprar a edição com essa aventura dos Vingadores.

Salta pra hoje: A Capitã Marvel tem aventuras em um multiverso. Nos Ultimates, aventuras solo, protagonismo na SEGUNDA Guerra Civil, tudo ao mesmo tempo agora. O Batman não tem superpoderes, mas aparece simultâneamente em 3, 4 títulos de uma vez, resolvendo casos completamente diferentes. Se isso não é viagem no tempo, não sei o que é.

Aí o que os escritores fazem? Foda-se a continuidade. É tanto trampo pra amarrar tanto conteúdo, que deixa pra lá. E não é só isso. Alguns personagens já morreram e voltaram uma cacetada de vezes. Aí quando você pega 50 anos de história e enfia numa continuidade nova, de 10, não tem como explicar nada.

6 – Super-Eventos. Já deu

De uns tempos pra cá, toda história parece que é um prólogo ou epílogo de alguma coisa. Guerra Civil, de 2006, foi um puta sucesso. De lá pra cá, pelo menos uma vez por ano, a Marvel tenta repetir a parada, com algum mega crossover que una TODOS os títulos da editora. O Reboot da DC tá indo pro mesmo caminho, fazendo tudo caminhar para uma mega-saga. Aí amarram-se todos os títulos, fora os especiais, tie-ins e sei lá eu mais o quê. Lanterna verde, por exemplo. Vem emendando mega eventos desde 2005, sem parar. Os X-Men viraram a putinha da Marvel, emendando esses eventos impactantes e catastróficos para os mutantes.

Aí as histórias individuais dos heróis são interrompidas o tempo todo por causa desse tesão megalomaníaco de sagas gigantes. E aí depois do evento, as histórias de cada um são diretamente afetadas, nego morre, títulos são criados e cancelados e quem tá só afim de ler a sua HQ preferida, fica com aquela cara de merda. Além disso, não é incomum rolarem atrasos em algumas edições e nas outras q saíram em paralelo, você toma aquele PUTA spoiler. A Marvel sofreu com isso em Guerras Secretas e Guerra Civil 2. Adiantou? Nada. Já tão indo pro próximo mega evento, Monsters Unleashed.

 

 

5 – Ninguém assume riscos reais

Super-Heróis salvam o dia, mas também dependem de franquias e propriedades. Então os roteiristas tem que sempre achar um caminho para criar coisas novas e manter os executivos felizes, fazendo sempre “igual, mas diferente”. Tem que mudar, mas não muito porra, tem que dar lucro.

Então, mesmo que matem o Super-Homem, ele nunca vai morrer mesmo. E se morrer, pode saber que vai rolar uma mega-saga e ele vai voltar do além. Ninguém mais se choca com isso, por que todo mundo sabe que, eventualmente, vão usar a volta dele pra vender mais. A Marvel trouxe a Gwen Stacy de volta depois de ANOS. O único que tá demorando mesmo pra voltar é o Wolverine, mas você acha mesmo que eles vão matar o Logan?

As HQs estão vivendo em função de TODAS as outras mídias. Brian Michael Bendis não teve uma nova ideia foda pra contar uma história sobre a Jessica Jones e aí lançaram o título. Lançaram por que a série da Netflix foi um sucesso e a editora quer capitalizar em cima. Quando der uma esfriada, vai ser cancelada e substituída. As vezes nem dá tempo do leitor gostar daquilo.

Mesmo nessa onda da Marvel, muito legal de aumentar a diversidade na comunidade de Heróis, com as mudanças em Thor, Capitão América, Capitã Marvel, Homem de Ferro, a trava tá ali. Qualquer duas edições resolvem e revertem tudo pro status quo.

4 – Buscando novos leitores. Na marra

Quando eu era moleque, eu adorava ir à banca de jornal comprar gibi. E era simples, papel jornal, capa mole, baratinho. A maioria das vezes, pelo menos no começo eu ia pela capa mesmo. Curtia a ilustra e comprava pra ler. Era acessível. E bem mais simples, por assim dizer. E já discutia questões importantes até hoje, como empoderamento feminino, preconceito e outras.

Aí como tudo no mundo, parece que rolou uma gourmetização dos quadrinhos. Tudo tem alguma ligação com outra mídia, e a popularização dos encadernados, consequentemente o aumento dos preços por aqui. Tudo sempre pra aproveitar um hype, seja do cinema, seja da TV, ou um game de repente. Te garanto que tem gente por aí que saiu chocada de Batman V Superman por que ele morreu e não faz idéia do arco “A Morte do Superman”, de 1992.

Quer outro exemplo? Vê se muito por aí a discussão de que Super-Heróis não representam minorias, por que claro, quando os personagem foram pro cinema, foram com as suas versões “originais”. Mas essa mesma galera que reclama, não acompanha os quadrinhos, não vê a mudança acontecendo lá. As pessoas gostam de reclamar, mas ninguém vai atrás de consumir o material. Senão HQs tavam vendendo bem pra caceta.

Aí a editora percebe essas reclamações e pra tentar abraçar esses potenciais novos leitores ela faz o quê? Transforma o Thor em mulher, por exemplo. Isso tem trazido mais gente pra ler? Não. Na verdade a editora nem deve estar preocupada com a questão real que é aumentar a diversidade. E antes que alguém me xingue, é válida e e eu sou 500% a favor. Só acho que não tem que ser por oportunismo.

3 – A história não anda pra frente

Eu falei muito de reboot e relançamento, mas são duas coisas bem distintas. O Reboot é aquela alteração pesada, seja da história, personagens, motivações. Tudo. É uma nova visão daquele personagem. E de tempos em tempos, eu até concordo que seja uma boa, como foi o caso do Superman nos anos 80, pelas mãos do genial John Byrne. Um relançamento é um reboot preguiçoso, muda algumas coisas no status quo, dá uma atualizada, elimina algumas coisas do passado e toca o barco.

Nas eras de Bronze e Prata, as mudanças aconteciam. Peter Parker se formou no colégio, fez faculdade; Reed Richards e Sue Storm se casaram, tiveram filho, se tornaram pais. E eu podia seguir aqui adiante com um milhão de exemplos. Mas conforme o tempo foi passando, as mudanças foram diminuindo e cada vez mais superficiais. O foco é parecer que evolui, ao invés de evoluir mesmo. Mudou muito? Evoluiu muito? Prepara que lá vem reboot.

Isso aí é tesão dos escritores de escrever coisa ruim? Claro que não. É a consequência de ter personagens possuídos por corporações. Por mais que o Dick Grayson seja o substituto natural do Batman, treinando e se preparando a vida toda pra isso, todo o excelente trampo do Grant Morrison foi desfeito, por que para 90% da população mundial, o Batman é o Bruce Wayne. E assim deve ser, por que o personagem tem que ser rentável.

2 – Títulos autorais de autores famosos

Tem vários artistas de HQ que se tornam lendas, tem uma vase de fãs e conseguem chegar ao ponto de publicar material original em editoras independentes, como a Image Comics, onde todos possuem liberdade criativa. Então basta seguir os roteiristas e descobrir que o trabalho continua bom, quem engessa são as corporações, donas das editoras. Autores como Jonathan Hickman, Greg Rucka, Jeff Lemire e por aí vai.

Todos escrevendo super-heróis, sem amarras. Sem pensar em margem de lucro, venda de brinquedos, o filme que estréia, o hype. Nada disso. Duvido que tenha um executivo na Terra capaz de convencer o Mike Mignola que o Hellboy deveria utilizar um Hellmóvel, por que daria um brinquedo foda. Se você gosta de super-heróis, devia tentar Invincible do Robert Kirkman e Astro City do Kurt Busiek, por exemplo. Mesmo antes de partir para mangás e/ou quadrinhos europeus, ainda tem muita coisa boa fora de DC/Marvel: Image Comics, Dark Horse, Top Cow, Dynamite, IDW, Valiant. Você gosta de Hamburger? Então não tem por que insistir em comer só no Mc Donalds ou Burger King. Com HQ é a mesma coisa.

1 – Eles agem como se você lesse TUDO que sai

DC e Marvel não permitem que você dê um tempo deles. Eles sabem disso e usam como mecanismo pra enfiar tudo goela abaixo e tentam te deixar culpado por não acompanhar seus personagens preferidos. Não fez sucesso? A culpa é sua fã, que não comprou 34 gibis no mês pra acompanhar a maxi-saga Guerra Civil nas Infinitas Terras do Multiverso Secreto.

Eles sabem que a maioria dos leitores vai e compra por inércia. Seja lá o quão merda for a história, vai vender. Eu aposto que tem cara que compra e nem lê, compra por que coleciona e não quer que a sua coleção fique furada. O cara fica tipo um viciado, assim que sai ele vai atrás e compra, foda-se, não importa que tenham 5 edições do Batman no mês. Tem maluco que compra 3 cópias: Uma pra ler, uma pra guardar e a outra pra vender no e-bay. Você não vai sair fácil e eles sabem disso. Tá deprimido? Toma aqui a última edição dos Guardiões da Galáxia.

Os fãs na real reclamam pra cacete sobre algumas práticas, mas não mudam, continuam consumindo. Novos 52 foi de muitas maneiras um tiro no pé pra DC, mas as pessoas botaram fé que depois desse reboot ia ser diferente. A Marvel vai pelo mesmo caminho, quando você menos esperar, pimba, reboot. Mas sem mudanças revolucionarias, é só o suficiente para manter os fãs presos.

E você, corajoso leitor que chegou até aqui, não pense que eu odeio HQs ou Super-Heróis. Pelo contrário, eu amo. E no meio de muita coisa duvidosa, tem muito material bom nas HQs mainstream. Mas isso são coisas que eu vejo muita gente que gosta também reclamando, mas ninguém parece se mexer para mudar.

E por mudar eu não digo ficar xingando muito no twitter, ou fazendo threads no reddit. A maior arma que nós fãs temos é a carteira. Vai poupar a sua decepção ao ler pela milésima vez a primeira luta do Superman com o Batman. Também não disse para você abandonar os quadrinhos. Vai atrás de materiais diferentes, respirar ar novo, referências novas. Isso me ajudou muito a voltar e curtir de novo HQs, como o Miles Morales que é um puta Homem Aranha legal, ou a nova fase do Doutor Estranho. Até Homem de Ferro tá legal ultimamente. Só larguei mesmo o Batman. A fase do Scott Snyder foi animal, mas acho melhor dar um tempo.

 

 

Tá cansado de quadrinhos mainstream? Deixa aí umas dicas pra mim e pros amiguinhos, vamos trocar referências de HQs diferentes!

One Response

  1. Rudá Muniz

    Apesar de não concordar com tudo, excelente texto. Quando ao avanço dos personagens, as editoras apelam aos reboots justamente pela propria quantidade de histórias anteriores, o que assusta novos leitores. O reboot é uma forma dessas editoras gritarem “hey, olha aqui, Batman 01, pode ler sem precisar ter lido uma história de 17 anos atrás”.

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