Começo com um pedido de desculpas, afinal esse texto não é bonito, muito menos uma crítica filosófica sobre a nova série da Netflix: 13 reasons why. Se você clicou esperando algo do tipo, melhor parar por aqui.

Sou curiosa por natureza, por esse motivo escolhi o jornalismo como profissão. Na formação acadêmica em comunicação somos treinados dentro de um código de ética muito rígido, afinal tudo o que noticiamos pode ser entendido como “verdade absoluta”. Entre os assuntos proibidos, está o suicídio.

Isso acontece porque é comprovado cientificamente que quando um caso de suicídio é noticiado, provoca-se uma reação em cadeia e há um estímulo para esse tipo de ação.

Nos últimos 15 dias estive de férias e recebi mensagens de colegas de profissão que me diziam que eu precisa assistir “13 Reasons Why”. Confesso que quando li as primeiras resenhas, achei que seria apenas mais uma daquelas séries que romantizam os dramas adolescentes.

Voltei de viagem e, instigada, resolvi assistir. Resultado: maratonei!

Não, isso não quer dizer que eu amei ou que o assunto me prendeu. Foi estranho. É difícil explicar o que eu senti ao ver o desenrolar das fitas deixadas por Hannah. Voltei para 2003, ano em que entrei no ensino médio. Todas as situações citadas na série podem ser facilmente encontradas nos colégios. Eu mesma vivi alguma delas. É mais do que apenas bullying. Trata-se da crueldade humana, da criação errônea de alguns pais, cultura do estupro… são tantas coisas.

13 reasons why não é uma série comum, muito menos um relato sobre suicídio. Ela vai além, mostrando – de forma simples – como as coisas acontecem dentro dos colégios. O ser humano – adolescente ou não – pode ser muito cruel, mesmo quando essa não é sua real intenção.

Pais, diretores de colégio, professores e adultos de um modo geral deveriam assistir. Apesar de parecer pesado, a cabeça dos jovens funciona exatamente como a série retrata.

Apesar dessa percepção, isso não quer dizer que eu gostei. Não, eu não gostei. Explico o porque.

A série funciona como um tutorial de suicídio. Sim, é exatamente isso. Com a cultura de bullying que ronda os colégios em todo o mundo, “13 reasons why” oferece uma série de dicas para você acabar com a própria vida e nenhuma opção de como essas pessoas podem receber ajuda – está ai o grande erro!

A personagem central da trama é uma adolescente com perturbações e problemas comuns. Não, ela não passa por nada que ninguém aqui já não tenha passado. Aposto que você já foi ridicularizado, já se apaixonou por um idiota popular do colégio, já presenciou brigas dos seus pais, já teve algum problema de grana ou – para as meninas – já sofreu algum tipo de assédio.

Sim, isso é muito normal! Acontece todos os dias com milhões de pessoas.

Que a Netflix me perdoe, mas não precisávamos de uma série que mostrasse que o único caminho para resolver essas situações é o que a personagem decide seguir.

Vamos ao cenário atual:

  • segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) aproximadamente 1 milhão de pessoas se suicidam a cada ano. Para cada morte, existem 26 tentativas mal-sucedidas;
  • depressão e bipolaridade são as doenças que mais afetam os jovens no mundo – e são também a maior causa de suicídio;
  • “cão que ladra não morde” – esse ditado não pode ser aplicado quando falamos em suicídio. Em 90% dos casos a pessoa demonstra a vontade de tirar a própria vida antes de realizar o ato;
  • suicídio não tem uma única causa. Ele é a somatória de fatores sociais, psicológicos, biológicos, genéticos e socioculturais.

Tenho acompanhado a repercussão da série e vejo uma aderência incrível dos adolescentes, curiosa que sou, resolvi bater um papo com duas adolescentes que haviam acabado de assistir a série. Ouvi as seguintes frases:

ela tomou a única decisão que ela podia. Ela acabou com tudo o que atrapalhava a vida dela e fez todo mundo pagar pelo sofrimento que fizeram ela passar.

não é fácil passar pelo o que ela passou. Ela não teve outra opção.

Foi difícil, precisei manter a calma (coisa que eu não tenho muito). A conversa após essas frases durou mais de 1h30, e – no final – chegamos juntas a conclusão de que sempre há uma opção.

Elas são apenas duas – dentro de um grupo e milhares de adolescentes que assistiram 13 reasons why. Me assusta pensar que alguns desses milhares podem não ter alguém por perto para explicar que suicídio não é uma opção.
Então, me julguem, mas minha ética profissional e pessoal não me permite gostar de algo do gênero.

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