O Batman, Gotham City, seus malucos vilões e aliados são inegavelmente populares e são tão enraizados na cultura popular que se tornaram um fenômeno cultural. Ao longo de 75 anos acho que não teve nenhum formato de mídia em que não tivemos uma versão do Homem-Morcego, de quadrinhos a TV, passando por cinema, temos visto várias versões do Batman ao longo desses anos, mas nenhuma foi mais definitiva do que a sua trajetória nos desenhos animados, principalmente no nosso assunto de hoje: Batman: The Animated Series, ou Batman: Volume 2 se você assistia no SBT.

Acho que nunca uma história foi tão bem adaptada de uma mídia para outra. As histórias que nós vimos pelas mãos de Paul Dini e Bruce Timm capturaram a essência do personagem e do ideal que é o Batman, para criar uma série animada que revolucionou todo o jeito de contar histórias através de desenhos animados. Uma série que além de estar sempre nas listas de melhores desenhos ainda definiu o Batman para as próximas gerações.

Tudo é bem marcante, desde a animação, até os roteiros. Com uma dublagem muito foda (tanto a original quanto a brasileira). Tirando a influência do cinema tanto de Tim Burton quanto de Christopher Nolan (infelizmente), nada se compara a esse desenho animado. Como se não bastasse tudo que eu falei, ainda foi pioneira de uma época de ouro da animação baseada em quadrinhos e deixou marcas que ainda podem ser vistas em qualquer material que se faça sobre o Batman. Ou seja, você não conhece o Batman de verdade, a menos que tenha visto Batman: The Animated Series.

O Estilo de Animação e a Direção de Arte

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Claro que todos temos nossas preferências quando o assunto é esse, mas em B:TAS tem estilos que chamam muito atenção. Essa mistura entre o Gótico dos quadrinhos e o Noir, com uma coisa vibrante da era de prata, que cria um sentimento meio atemporal. Não dá pra precisar exatamente em que época a série se passa. Mafiosos vestidos à moda anos 40, carros retrô, alguns equipamentos mais modernos. Parece deslocado do tempo, quase uma realidade paralela do Batman.

Aqui a análise de um designer gráfico e nerd, mas tudo é bem pensado, desde o design dos personagens até a paleta de cores. Parece bem surreal às vezes, mas é único. Acho que isso chama muito a atenção. E esse contraponto do design também é explorado nos personagens, o que vamos combinar não é fácil de fazer.

Nos deu a voz definitiva de dois personagens

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Essa vai mais pra quem acompanhou o áudio com o material original. Mas como definir a voz de um personagem dos quadrinhos? Claro que novamente, todos tem seus favoritos. Deve ter gente por aí que acha que o melhor Batman foi Adam West no seriado live action dos anos 60. E tudo bem, eu respeito você, mesmo que você goste do Batman do Christopher Nolan, mas como a voz do Batman, ninguém barra o dublador Kevin Conroy.

Por várias vezes ele foi o intérprete do Batman, tanto em animações quanto jogos. E se você alguma vez ouviu o Batman em inglês, a voz é imediatamente reconhecível. Inclusive se você tem o jogo Batman: Arkham Knight, não deixe de conferir o áudio original em inglês.

Mas assim como Batman não existiria sem o Coringa, a voz de Conroy não existiria sem uma voz marcante para o Coringa. Que inclusive é um nome bem marcante para todo nerd que se preze. Mark Hamill, o eterno Luke Skywalker.

Depois deles, os outros não tem o mesmo apelo. Claro que deixaram suas marcas nos personagens, mas não conseguiram barrar a dupla Conroy/Hamill.

Não deixou de ser sombrio

Batman não é sempre 100% tenso e sombrio, mas é certamente uma porção grande da sua origem é bem dark. Claro que tem espaço pra todo tipo de maluquice, como Batman: The Brave and The Bold. O ponto é que, até B:TAS esses elementos mais sombrios do personagem tinham meio que sido esquecidos até então. E se a gente pegar alguns episódios, é de se pensar como o pessoal do estúdio driblou a censura, afinal, desenho animado geralmente é para crianças, certo?

Armas de fogo, tortura, assassinato, terrorismo. Esse tema e varios outros bem nublados foram abordados em algum momento da série. Mas tudo foi tão bem encaixado que os censores geralmente tinham justamente a reação contrária e não proibiam esses temas mais polêmicos, por assim dizer.

Um que eu me lembro de ter sido especialmente sombrio é o episódio do Gás do riso. O programa não podia mostrar explicitamente que as vítimas do Coringa morriam envenenadas pelo gás. Ao invés dessa morte horrível, os Showrunners decidiram por colocar na vítima as feições doentias do Coringa. E olhando pra trás eu acho que foi bem mais sombrio e horrível do que simplesmente matar a vítima.

Os personagens escolhidos

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Trabalhar com muitos personagens geralmente é um problema, mas não foi nesse caso. Com um casting gigante, mas cuidadosamente escolhido, acabou tirando dos roteiristas o melhor que podia ser tirado. Desde os vilões clássicos, a vilões da era de prata da da DC como o Rei Relógio, até vilões mais recentes, como Ra’s Al Ghul encontraram seu lugar ao sol (ou no caso de Gotham, na sombra). No total foram mais de 50 personagens que fizeram sua participação, que cobriu basicamente TODA a mitologia do Batman.

A série foi bem longa e os personagens secundários também tiveram momentos importantes, tanto quanto vilões de primeiro escalão. No fim todos tiveram uma chance e eu acho que nenhum fã do vilão A ou B tem porque fazer mimimi. A fórmula foi repetida para todos os desenhos animados que vieram depois, de tanto que funcionou.

Moldou Batman fora da animação

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O fato de que o desenho teve um impacto nos quadrinhos e fora do meio animado é só mais uma prova de quão foda ele é. Dois personagens criados no desenho, Harley Quinn e a detetive Renee Montoya foram parar direto na cronologia oficial. Além disso, reimaginou vários personagens, o que gerou algumas correções na cronologia dos quadrinhos, como no caso de Harvey Bullock por exemplo, de policial corrupto a um detetive correto e bem intencionado.

O programa ainda nos fez o grande favor de definir uma linha temporal futura, que entrou na cronologia da DC antes dos novos 52. Batman do futuro, mostrando as aventuras do substituto de Bruce Wayne, Terry McGinnis, que dividiu um pouco os fãs, mas é inegável que causou um impacto no Universo DC, animado e nos quadrinhos.

Apresentou o Batman para uma nova geração

 

Um ponto muito importante, talvez um dos mais importantes, é ter apresentado o personagem para toda uma nova geração de fãs, que talvez fossem muito novos para ver os filmes de Tim Burton. E a série fez seu trabalho magistralmente nesse ponto, consolidando o Batman como um dos heróis mais populares atualmente. Obviamente Nolan e Burton tem sua parcela de culpa, mas a série animada ocupou o espaço entre filmes.

Me lembro de quando eu assisti a primeira vez. Eu tava em casa, e a TV ligada no SBT, passando aqueles desenhos genéricos até que essa abertura me chamou a atenção:

Acho que eu não preciso falar mais nada. Preciso?

É atemporal

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Como eu comentei mais lá em cima. Todas as séries animadas da DC tem esse feeling atemporal, tanto cronológicamente quanto literalmente. Todas as temporadas podem ter sido feitas em qualquer época, para qualquer criança, ou adulto, já que se você gosta de quadrinhos eu aposto que você gosta dessa série. Aposto também que você já viu as outras séries animadas do Universo DC.

Se você pegar agora e assistir a um episódio, ele não vai parecer deslocado, ou antiquado. Assim como Looney Tunes ou Scooby Doo, por exemplo, Batman: The Animated Series certamente sobreviveu ao teste mais difícil. O do tempo.

Todas as 4 temporadas parecem recentes tanto agora, quanto na época em que foram lançadas. E isso é muito difícil de conseguir, principalmente entre animações.

Foi o ponto de partida do DCAU

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Essa eu também comentei superficialmente lá em cima, mas B:TAS foi o pioneiro e o seu sucesso foi o principal responsável por garantir para a DC e para Bruce Timm novas oportunidades para trazer outros personagens e mais seriados como esse para a telinha.

Foram três temporadas de B:TAS, que sofreu um redesign em The New Batman Adventures. Junto com Batman, tivemos Superman: The Animated Series. Com os bons resultados o leque foi se abrindo e tivemos Batman do Futuro, Liga da Justiça, Liga da Justiça Sem Limites, Static Shock. Todos mantendo a mesma qualidade do programa que começou tudo.

É justo admitirmos que sem o primeiro passo, provavelmente não teríamos os longa-metragens animados da DC. E tudo tinha uma certa ligação, mesmo entre os longas e as séries, principalmente a personalidade e a força do Batman como protagonista ou co-protagonista de todas as histórias em que participou, fosse série animada ou longa metragem.

A trilha sonora

Como toda obra bem feita, uma trilha sonora foda é uma parte importante. Nesse caso acho que seria até injusto da nossa parte dizer que existe alguém que se compare ao trabalho de Danny Elfman com o Morcego. A música de abertura é icônica. E você identifica de cara que se trata de alguma coisa sobre o Batman.

As músicas no programa no entanto não são de Elfman, mas sim de uma compositora chamada Shirley Walker, uma das poucas mulheres que trabalhava como compositora em Hollywood na época, aproveitou a referência e trouxe vida à série, levantando ainda mais a parte dramática.

Ela também foi responsável por compor as trilhas sonoras de outras séries do DCAU, inclusive aquela trilha sonora espetacular do longa Batman: A Máscara do Fantasma.

Se você é fã, tem alguma coisa especial para você. Se não é, também tem

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Não importa qual versão do Batman você goste, certamente vai ter alguma coisa que é referência ou referenciado nessa série. Por mais que o Batman tenha mudado muito em 75 anos, a série conseguiu manter a sua essência intacta em um período curto de tempo. Bruce Wayne não fica relegado a segundo plano o que faz com que o Batman seja mais humano, não só um cara fantasiado de morcego enfiando a porrada em meliantes nas madrugadas de Gotham.

 

Isso é importante por que nos quadrinhos ou filmes nunca foi possível mostrar o Maior Detetive do Mundo com tanta riqueza de detalhes. Não me entenda mal, eu adoro os quadrinhos, gosto dos filmes do Tim Burton, mas todos eles deram os seus próprios pontos de vista sobre o Batman. É quase como se o desenho fosse neutro, simplesmente mostrando, sem ressaltar pontos em detrimento de outros.

Logo, se você não consegue ter uma visão tão completa sobre o Cavaleiro das Trevas em nenhum outro lugar, acho que essa é a razão que torna essa série tão especial para as centenas de milhares de fãs que de fato curtiram assistí-la. A sua influência e presença só podem ser um legado muito bom que Bruce Timm e equipe deixaram para o Batman, principalmente agora que ele vai entrar em uma nova fase de popularidade extrema.

 

3 Responses

  1. Eugen

    Concordo com todos os aspectos aqui destacados.
    Para qualquer fã do morcego essa é uma série essencial.
    Também tive a oportunidade de assistir na tb na época do lançamento, e não perdia nenhum episódio. Foi graças a essa sensacional série que me tornei um seguidor do cavaleiro das trevas, sendo que desde então coleciono diferentes itens deste iconico personagem.
    Deixo aqui uma menção honrosa à Márcio Seixas, o incrível dublador do batman. Acho sensacional a voz de kevin conroy, mas a voz de Márcio Seixas me faz lembrar da minha infância e da espera para ver cada episódio

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  2. Eugen

    Outro tópico a ser ressaltado é o Coringa.
    A fórmula utilizada aqui para retrata-lo até hoje pode ser observado nas diferentes mídias. Sem dúvidas uma das melhores q já vi

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  3. Lucas

    Podia ter falado que com esse desenhos mostrou que desenhos infantis não precisavam ter história bobinha mas poderia ter história maduras sem ele desenhos como avatar, gárgulas, samurai jack, Ivan atar racer é até provavelmente jovens ttans não existiriam
    Poderia ter falado também as mudanças que esse desenho gerou nos traços deixando eles mas simples mas com maior facilidade de animar todos desenhos hoje são assim por causa dele ( tirando os que têm animaÇao ém cgi é claro)
    Para mim esse desenho do Natan foi tão importante na indústria da animação quanto simpsons

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