Eis o que diz a história: Superman é o primeiro super-herói da história. Não teríamos todo esse monte de coisas se não fosse pela revista Action Comics #1, de 1938. Nascia o mito do super ser, quase um semi-deus, com super força, velocidade, entre outras várias habilidades extraordinárias, disposto a ficar na Terra e proteger os fracos e oprimidos. Se não fosse o azulão, nada do que a gente gosta estaria por aí.

MAS, ALTO LÁ. Apesar dos poderes e façanhas que humanos comuns não são capazes, temos outros candidatos de peso, entre eles um dos personagens mais legais dos quadrinhos. O Fantasma – O Espírito que anda.

Quadrinhos sempre fizeram algum sucesso nos jornais, principalmente no final do século XIX, início do século XX, nos EUA, mas ainda no começo do século XX, com a criação dos syndicates, as tiras ganharam mais espaço, se popularizaram, e novos personagens surgiram, por que essas syndicates eram mais ou menos como coletivos de artistas e eram responsáveis por distribuir esse material para os jornais. A King Features Syndicate certamente era uma das que mais se destacava nessa época, já responsável por distribuir personagens icônicos, como Popeye e Flash Gordon. E nessa sequência de criações, mais precisamente em 1934, surgia um novo sucesso que você aí já deve ter ouvido falar. Mandrake – O Mágico, criado por Lee Falk.

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Se você não tem idéia do que eu estou falando, resumidamente, o Mandrake é um mágico que conta com alguns poderes (além dos truques que todo mágico tem) e decide utilizar esses talentos para combater o crime. Veja que por combater o crime eu quero dizer criminosos comuns, aqui ninguém é super até então.

Com o sucesso do personagem e essa nova abordagem um pouco menos cômica e mais aventuresca, a King Features pediu mais um personagem no mesmo estilo para o mesmo Lee Falk, que de primeira tentou vender uma história com o Rei Arthur, mas não rolou. E foi aí que nasceu a lenda do Fantasma, que quase foi o Fantasma Cinzento, por que já haviam alguns personagens com Phantom, no original como nome (Por exemplo The Phantom Detective, que eu nem sei se chegou a desembarcar por aqui).

Falk tinha uma certa fascinação por personagens que viviam vidas duplas, e de começo O Fantasma seria um playboy rico chamado Jimmy Wells de dia e um herói mascarado à noite (Veja você que ele quase criou o Batman).

Inspirado no Zorro, que é de 1919, também buscou inspiração em Tarzan (de Edgar Rice-Burroughs) e Mowgli (protagonista de O Livro da Selva, depois adaptado para o cinema pela Disney). Dessa mistureba nervosa nasceu o personagem icônico, que fez a sua estréia no dia 17 de Fevereiro de 1936. Portanto fazendo 80 anos de vida.

De começo, o próprio Lee Falk escrevia e desenhava as tiras, sendo que pouco tempo depois a arte passou para as mãos de Ray Moore e depois para outros artistas, incluindo aí nomes como Carmine Infantino. Mas Falk continuou escrevendo as histórias até a sua morte, em 1999.

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A História do Fantasma

Nas selvas de Bengalla (ou Bengal em algumas versões), um país fictício da África, existe a lenda do Espírito que Anda, um homem que nunca morre e possui poderes sobrenaturais, combate o crime e protege os inocentes.

Ou não, já que ele não era imortal, nem tinha nenhum super poder. De qualquer maneira, esse era o recado para todos aqueles que quisessem fazer o mal ou prejudicar inocentes nessa região da África. Kit Walker era na verdade um homem comum, 21º descendente de uma linhagem de protetores de Bengalla, que começou em 1525, quando um náufrago, Christopher Walker foi vítima de piratas e acabou nessa região, jurando acabar com a pirataria, a crueldade a injustiça. Dele em diante o cargo de Fantasma passou a ser hereditário e é daí que vem a lenda de ele ser imortal. Nas 20 gerações seguintes, os Walkers viviam na Caverna da Caveira e vestiam o famoso uniforme roxo, baseado na lenda de um deus demônio.

Conforme o tempo foi passando, as origens foram se aprofundando e criando todo o background do personagem, expandindo sua mitologia, bastante rica, diga-se de passagem. Os futuros Fantasmas levavam a vida normalmente, estudavam, praticavam esportes se preparando para quando precisassem assumir o manto e a tarefa de ser o protetor de Bengalla.

Além do traje roxo, ele ainda usa duas armas de fogo, mas apenas para desarmar os inimigos, não para matar. Algumas gerações anteriores usavam espadas, mas aí né, cada um com a sua época.

Mas o símbolo mais marcante do personagem são seus dois anéis: O primeiro na mão esquerda, perto do coração, com quatro sabres cruzados. Ele usa esse anel para marcar quem está sob a sua proteção. O outro fica na mão direita, com o desenho de uma caveira, que deixa a cicatriz no rosto dos inimigos.

Não preciso nem falar nada né? Uma combinação dessas fez o Fantasma ser um sucesso imediato. O personagem ainda pegou carona na Segunda Guerra Mundial, que além dele impulsionou vários personagens. Claro que a cortesia de marcar a cara dos inimigos com a caveira foi extendida para os Nazistas, o que levou as tirinhas a serem publicadas no mundo todo.

Por aqui, o Fantasma chegou em 1936 mesmo, publicado pelo A Gazeta, no suplemento infantil – A Gazetinha. Curiosamente por um problema técnico de gráficas, o uniforme do Fantasma mudou de cor, passando para vermelho (e agora ver o Mussum como O Fantasma de vermelho nos Trapalhões, faz todo sentido).

E por onde anda O Fantasma?

Depois que a Segunda Guerra acabou, a categoria dos super heróis perdeu espaço de uma maneira geral, só voltando mais perto dos anos 60. O Fantasma não foi diferente. Mas mesmo assim, o Espírito que anda segue defendendo Bengalla nas tiras que são publicadas até hoje. Nem a crise que assola os jornais impressos parece espantar O Fantasma (trocadilho não intencional). Inclusive, as tiras estão disponíveis online. Só clicar aqui.

Apesar de ser um romântico à moda antiga e se manter nas tiras, O Fantasma passou por várias mídias e formatos, com coletâneas de tiras já a partir de 1940, publicados pela Ace Comics.

Por essa mesma época, o personagem ganhou uma série, que era exibida nos cinemas e foi lançado em 1943 pela Columbia. Com 15 episódios, a série não acompanhava muito as origens do personagem, que ganhou uma nova chance, agora na TV em 1961. O piloto foi produzido, mas não foi adiante por questõe$ orçamentária$.

O Fantasma só foi reaparecer em 1986 em um desenho animado – Defensores da Terra, uma super equipe com os heróis famosos da King Features Syndicate: Flash Gordon, Mandrake, Lothar e o Fantasma. Eu me lembro muito de ver esse desenho nas manhãs do SBT e que eu me lembre, nessa versão ele tinha poderes sobrenaturais, veja você.

O sucesso do desenho, fez com que ele chegasse à Marvel, que colocou ~apenas~ Stan Lee para escrever uma minissérie dos Defensores da Terra, que saiu em 1987. Em 1988 ele pulou o muro e foi para a DC Comics, que publicou uma mensal entre 1988 e 1990.

Em 1994, uma nova série animada estreou na TV, Phantom 2040, com uma pegada futurista, que trazia a 24º encarnação do personagem, num futuro meio Cyberpunk. Nessa versão um jovem Kit Walker, que vive em Metropia, a NY do futuro, descobre seu legado e é obrigado a assumir o manto do Espírito que Anda. Foram duas temporadas e um game para SNES. Eu pessoalmente gostava PRA CACETE desse desenho e no geral a série foi bem elogiada. Essa série ainda rendeu uma nova minissérie em HQs pela Marvel, que deixou a arte nas mãos de ninguém menos que a lenda, Steve Ditko, o co-criador do Homem-Aranha.

Em longa-metragem também temos sim senhor. Um filme HORROROSO, mas tudo bem. Em 1996 estreou O Fantasma, com Billy Zane como protagonista (sim, aquele cornudo do Titanic, que foi trocado pelo Di Caprio). Eu confesso que eu até gosto do filme, é tipo um guilty pleasure e apesar de fraco é bem fiel aos quadrinhos, na medida do possível, mudando por exemplo, a origem do anel de caveira. O que derruba o filme é um roteiro bem raso e ele ter sido feito antes desse boom de super-heróis no cinemas e aí o resultado foi um belíssimo flop. O filme custou cerca de US$ 45 milhões, mas arrecadou só US$17 milhões nos EUA.

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Aí o personagem foi parar de novo na geladeira e para encontrar material inédito, só nas tirinhas mesmo. Em 2009, uma nova tentativa para a TV, dessa vez do canal SyFy, que tentou dar uma atualizada no personagem e arriscou, lançando uma minissérie em dois episódios com 90 minutos cada. O plano era que fosse um piloto para uma série de TV, com o 22º Fantasma, mas também naufragou (de novo um trocadilho não intencional) e o projeto foi cancelado.

Volta e meia pintam boatos e rumores sobre mais um filme, incluindo boatos de um reboot, The Phantom: Legacy com roteiro de Tim Boyle. Em 2014 outro boato, colocando o produtor Mark Gordon (Criminal Minds) em um projeto, mas dois anos sem notícias, deve ter ido parar em alguma gaveta em Hollywood.

Ah, mas então ele é o primeiro super-herói, certo?

Sim e não. Essa polêmica acompanha o Fantasma desde que ele nasceu. Tem uma corrente que defende que o Mandrake seria o primeiro, por possuir poderes magicos e chutar a bunda de meliantes por aí. Mas ele não tem um Alter-Ego, máscaras ou uniforme. Já o fantasma tem tudo isso e, se ajuda a causa, não tem as pupilas quando está de máscara, idéia inspirada nas estátuas dos deuses gregos, pra deixar mais imponente  e divino pras figuras, tendência que segue até hoje no mundo dos super-heróis.

Mas, tirando em os Defensores da Terra, o Fantasma não tem super poder nenhum. É só um cara normal que põe um macacão roxo e sai caçando piratas em Bengalla, então tem uma corrente que defende que por não ter poderes, o primeiro super-herói de fato, é o Superman.

No final, personagens como Zorro, Tarzan, Sombra, Mandrake o próprio Fantasma e até o Superman são bases para o Arquétipo dos super-heróis, então acho que foda-se quem veio primeiro, o importante mesmo é que eles vieram.

E parabéns ao Fantasma! 80 anos combatendo o crime!

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Designer, publicitário, nerd desde sempre, guitarrista frustrado e ficando cada dia mais careca. Fã de quadrinhos, tecnologia, pizza, Rock e chegado em jogar videogame quando não tem nada melhor pra fazer. Alguns diriam que eu sou um hipster daqueles, mas não uso óculos (ainda).

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